A marcação a mercado (atualização diária do preço de um título pelo que ele valeria se vendido hoje) é o motivo de o seu Tesouro IPCA+ (título público que paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa fixa) aparecer no extrato subindo ou caindo antes do vencimento. É oscilação de preço no caminho, não perda concreta. Vamos entender juntos como isso funciona.

Grafico oscilando representando a marcacao a mercado de titulos IPCA+

O que é marcação a mercado?

Marcação a mercado é reprecificar um título todos os dias pelo valor que alguém pagaria por ele agora, e não pelo valor que você pagou. No Tesouro Direto, o Tesouro Nacional divulga um preço de compra e de venda diários. Quando esse preço muda, o valor que aparece no seu extrato muda junto, mesmo que você não faça nada.

Pense no título IPCA+ como um contrato: ele promete devolver a inflação do período mais uma taxa fixa, chamada de taxa contratada (o percentual ao ano acordado no momento da compra, tipo IPCA + 6% ao ano). Essa promessa vale integralmente se você segurar até o vencimento. No meio do caminho, o preço vira uma gangorra que balança conforme os juros que o mercado passa a exigir.

Por que meu Tesouro IPCA+ fica negativo?

Existe uma relação de gangorra entre juros e preço dos títulos: quando os juros de mercado sobem, o preço dos títulos já emitidos cai; quando os juros caem, o preço sobe. Isso acontece porque, se surgem títulos novos pagando taxas maiores, o seu título antigo, que paga menos, fica menos atraente. Para ele ainda interessar a um comprador, o preço dele precisa cair.

Um exemplo simples com números redondos. Você compra um Tesouro IPCA+ pagando IPCA + 6% ao ano. Passados alguns meses, o mercado começa a negociar títulos parecidos a IPCA + 7% ao ano. O seu, preso nos 6%, vale menos para quem compraria hoje, então o preço de venda dele recua e o extrato mostra número no vermelho. Se, ao contrário, o mercado passar a aceitar IPCA + 5%, o seu título de 6% fica cobiçado e o preço sobe, mostrando número positivo. Repare: nada mudou no que você contratou, só mudou o humor dos juros lá fora.

O que acontece se eu levar até o vencimento?

Se você segurar o título até a data de vencimento, toda essa gangorra do meio do caminho deixa de importar. Na data final, o Tesouro te devolve o valor de face (o valor combinado que o título vale no vencimento) corrigido pela inflação do período mais a taxa contratada. Ou seja, a promessa original é cumprida independentemente de quantas vezes o preço subiu ou caiu antes.

Por isso vale distinguir duas coisas. A oscilação diária é apenas contábil enquanto você não vende. Ela só se transforma em ganho ou perda de verdade no momento em que você aperta o botão de vender antes do vencimento. Segurou até o fim? A oscilação do caminho vira só uma lembrança do extrato.

Por que prazos longos oscilam mais?

Quanto mais distante o vencimento, mais o preço balança com qualquer mexida nos juros. Essa sensibilidade tem um nome técnico, duration (uma medida, em anos, de quanto o preço de um título reage a mudanças nos juros), mas a ideia é intuitiva: um título que vence em 2045 tem muitos anos de pagamentos futuros que precisam ser reajustados quando os juros mudam, então ele sacode bem mais do que um que vence em 2029.

Na prática, isso significa que um IPCA+ 2045 pode aparecer com variações grandes no extrato, para cima e para baixo, enquanto um IPCA+ 2029 tende a ser mais comportado. Nenhum dos dois deixou de pagar o que prometeu para quem leva até o vencimento; o de prazo longo só oferece um passeio mais movimentado no meio do caminho.

Quando a marcação a mercado joga a favor?

A gangorra também pode balançar para o lado bom. Quando os juros de mercado caem, o preço dos títulos que você já tem sobe. Nessas janelas, quem comprou um IPCA+ com taxa alta pode ver o preço de venda antecipada ficar acima do que seria só a correção normal, abrindo a possibilidade de vender antes do vencimento com um resultado interessante.

Aqui entra uma dose de honestidade: entender o fenômeno é diferente de ficar tentando adivinhar o vaivém dos juros. Prever para onde a taxa vai é difícil até para quem faz isso o dia inteiro. A leitura mais tranquila é comprar pensando no vencimento e encarar uma eventual valorização no caminho como um bônus que apareceu, não como um plano. Se quiser comparar com um título que praticamente não sofre essa gangorra, dá para olhar o Tesouro Selic e como ele funciona.


Prós e contras dos títulos IPCA+ considerando a marcação

Pontos a favor

  • Protegem o poder de compra, porque somam a inflação (IPCA) a uma taxa fixa acima dela.
  • Se levados ao vencimento, entregam exatamente o combinado, sem depender da oscilação do caminho.
  • A marcação a mercado pode abrir janelas de venda antecipada favoráveis quando os juros caem.
  • São acessíveis: dá para começar com valores baixos pelo Tesouro Direto.

Pontos de atenção

  • O preço oscila no meio do caminho, e ver número negativo no extrato pode assustar quem não conhece o mecanismo.
  • Vender antes do vencimento num momento ruim transforma a oscilação em perda concreta.
  • Prazos longos, com duration maior, balançam bastante e exigem mais estômago.
  • Tem incidência de Imposto de Renda sobre o rendimento na venda ou no vencimento (o come-cotas, aquele recolhimento periódico de fundos, não se aplica aqui, já que isso é título direto, e não fundo).

Perguntas rápidas

Marcação a mercado é a mesma coisa que perder dinheiro?

Não. É só o preço do título sendo atualizado dia a dia. Enquanto você não vende, o número no extrato é uma foto do momento, não um prejuízo realizado.

Se eu segurar até o vencimento, a oscilação some?

Na data de vencimento você recebe a inflação do período mais a taxa contratada, independentemente das subidas e descidas do caminho. A oscilação só importa para quem vende antes.

Por que dois IPCA+ oscilam de formas tão diferentes?

Por causa do prazo. O de vencimento mais longo tem duration maior e reage mais forte a mudanças nos juros; o mais curto balança menos.


Referências

  • Tesouro Direto (Tesouro Nacional): preços, taxas e mecânica dos títulos públicos.
  • B3 / Bora Investir: materiais sobre renda fixa e marcação a mercado.
  • Banco Central do Brasil: política de juros e contexto da taxa Selic.
  • ANBIMA: metodologia de marcação a mercado e dados de mercado.